Felipe Ferrari, na íntegra

Armazém S.A. entrevista: Felipe Ferrari, na íntegra. Esta entrevista é relacionada a este post e  aqui você a lê na íntegra.

 

Felipe Ferrari

Já havia mencionado que meu primo, Felipe, está morando em Madrid. Ele é formado em publicidade pela Mackenzie e já viajou bastante pela Europa. Mora lá a mais de dois anos. Eu não, e por isso quis saber um pouco mais sobre a vida gastronômica de lá. A entrevista foi feita pelo  Google Talk nos dias 29 de janeiro e 04 de fevereiro.

ARMAZÉM S.A. – Nesse tempo, na Europa, onde você comeu melhor?

FELIPE – Dentre todos os países, sem dúvida na França, até por que tive a possibilidade de experimentar um pouco mais das cozinhas regionais, etc.

ARMAZÉM S.A. – Em que países você esteve?

FELIPE – França (1 ano e meio), Alemanha (3 meses), Espanha (2 meses), Áustria, Suécia, Itália, Hungria, Países Baixos e Suíça. 

ARMAZÉM S.A. – O que te chamou mais atenção na França?

FELIPE – A França é um pais que tem completamente enraizado na cultura a boa cozinha, os bons vinhos, mas que, por exemplo, tem uma certa limitação em relação à mistura de cozinhas e algo um pouco mais contemporâneo em termos de sabor.

ARMAZÉM S.A. – O que você comia no seu dia a dia?

FELIPE – Batatas de todas as variedades possíveis, sauté, rôti magret de canard sempre acompanhada de um molho com um toque açucarado, às vezes até mesmo com calda de chocolate, haricot verts ou legumes na manteiga…

ARMAZÉM S.A. – O que é haricot?

FELIPE – Haricot verts seria como a vagem no Brasil.

 ARMAZÉM S.A. – Você tem comido mais manteiga? Lembro que aqui no Brasil você evitava gordura ao máximo.

FELIPE – Legumes sempre na manteiga, não existe óleo, nem margarina na França, quando falamos de uma boa cozinha. As pessoas também comem a carne extremamente crua, o famoso point de cuisson: saignant! Se pedirmos uma carne bem cozida, seria o equivalente a ‘ao ponto’ na cozinha brasileira. Em relação à manteiga, é impossível estar na França e evitar por que todas as sobremesas e pratos tem a manteiga como ingrediente, devido ao ponto e temperatura que ela atinge quando aquecida para o preparo dos alimentos, e claro, o sabor que ela dá ao prato, como o azeite

ARMAZÉM S.A. – Entendi… e foie gras? É uma iguaria, caro também, ou mais comum?

FELIPE – O foie gras é uma iguaria, porém a verdadeira iguaria, não se encontra no supermercado, mas em verdadeiras casas especializadas, onde o foie gras é chamado de fermier, ou seja, produzido na fazenda e não industrializado. Todo francês come ou já comeu, mas não é um prato do dia a dia dos franceses, fica ainda reservado para ocasiões mais especiais.

ARMAZÉM S.A. -Entendi, bacana…

FELIPE – Essas pequenas casas são chamadas de epicerie. Onde se encontram bons queijos, uma enorme variedade de mostardas com todos os sabores e misturas inimagináveis: mostarda com tomate, azeitonas, etc.

ARMAZÉM S.A. – E qual foi sua melhor refeição na frança? Você foi a algum restaurante que achou especial? Ou as melhores refeições foram preparadas por seu amigo que se formou no Le Cordon Bleu?

FELIPE – Por exemplo, um excelente prato preparado pelo meu amigo: sanduíche de cerpe frita (cogumelo), com uma verdadeira mussarela de búfala, epices, etc. Ou, uma sopa de poivron (abóbora/ morango) com espeto de escargots.

ARMAZÉM S.A. – O que ele está fazendo hoje mesmo?

FELIPE – Atualmente ele esta em São Paulo, de férias, mas a partir do mês de fevereiro trabalhará em um dos restaurantes mais prestigiados da França e do mundo, próximo de Lyon, não me lembro o nome.

ARMAZÉM S.A. – E na Alemanha, alguma experiência que vale a pena relatar?

FELIPE – Em Berlin uma amiga minha preparou um molho 4 queijos que nós comíamos com os filetes da alcachofra, just delicious! Molhávamos e chupávamos com a ‘carne’ ou polpa da alcachofra.

ARMAZÉM S.A. – Hum, parece bom mesmo… ela também é chef né?

FELIPE –  Não, ela não é chef, mas sabe preparar boas coisas. Por exemplo, em Munich, uma salsicha branca com mostarda e uma rosca salgada, esqueci o nome, normalmente eles comem no café da manhã com uma cerveja, claro q uma cerveja from Bavaria!

 ARMAZÉM S.A. – Mesmo durante a semana?

FELIPE – Sim, mas creio q não todos os dias.

ARMAZÉM S.A. – Imagino que você não se importou em seguir o hábito (risos)…

 Felipe: (risos)

ARMAZÉM S.A. – E me fala um pouco da massa na Itália… sempre achei que eles comem a massa fresca, fazem em casa, mas acho q tenho sido ingênuo… De um tempo pra cá tenho desconfiado que o cara entra no mercado, compra uma massa industrializada e já era…

FELIPE –  Claro, cotidianamente, a maioria das pessoas se alimenta de coisas industrializadas, não é uma característica da Itália ou da frança, mas de uma economia de mercado, um novo estilo de vida prático e um establishment global que influência nos pratos de todas as famílias em todos os países.

ARMAZÉM S.A. – Entendi! A massa feita em casa deve ser mais em um fim de semana, na casa da vó ou pra quem gosta de fazer, né?

FELIPE –  Sim, é pra quem tem tempo ou que vai frequentemente em um restaurante que faça massas frescas.

ARMAZÉM S.A. – Lembra quando agente fez lá em casa, com um cilindro do nosso vô Walter?

FELIPE –  (risos) Lembro… deu trabalho!

ARMAZÉM S.A. – Um ficou passando a massa, o outro rodando o cilindro, braço de um pra lá, do outro pra cá (risos).

ARMAZÉM S.A. – E na Espanha, o que você tem comido no dia-a-dia?

FELIPE – Patatas bravas, (batatas) fritas cortadas em cubo, com ketchup picante. Tapas… hum… com jambon serrano, com filé de merluza e umas lascas de calamar… Tortillas claro…

ARMAZÉM S.A. – Calamar é lula?

FELIPE – Sim. Paella, mas com todos os tipos de carne, de porco, frango e com frutos do mar.

ARMAZÉM S.A. – Come-se muita paella?

FELIPE – Sim. E tem bares que servem como tapas, uns 5 euros um pratão. Bem farofeira, claro que essa não é a melhor, mas enfim, é popular.

ARMAZÉM S.A. – Isso é barato?

FELIPE – Sim, é barato, preço justo.

ARMAZÉM S.A. – E comeu do pata negra?

FELIPE – Sim, uma vez. É saboroso e gostoso. Geralmente vem pequenas lascas… creio que seja algo para apreciar mesmo.

ARMAZÉM S.A. – E as tapas sempre acompanhadas de cerveja?

FELIPE – Quase sempre. Tem alguns bares que só o fato de você pedir uma breja chamada Cañas, tipo um copo americano no Brasil, de 200ml, já te dão as tapas, for free.

ARMAZÉM S.A. – Você tem visto muitos “bares de tapas com toques de alta gastronomia”? Saiu uma matéria aqui que isso tem sido comum na Espanha, os gastrobares…

FELIPE – Sim, é verdade. Tem desde os bares botequim, que servem patatas bravas ou pães com azeite aquela água do tomate e jambon até outros que servem coisas deliciosas, tipo pão com queijo chevre (de cabra) derretido em cima de um tomate coberto com geléia de cebola… Hum, uma delícia.

ARMAZÉM S.A. – O pão é geralmente mais crocante?

FELIPE – Não, é murcho de molhado com o caldo do tomate ou murcho de velho mesmo.

ARMAZÉM S.A. – (Risos) Entendi…

FELIPE – Também tem a tal das croquetas, que são um tipo de croquete mas feito com frango e jambon.

ARMAZÉM S.A. – A massa é do que? Sabe o que eles colocam para juntar tudo?

FELIPE – Um creme branco com um pouco de queijo. Daí tem as morcillas, que eu não curto nem passar perto. É como uma lingüiça mas feito do sangue do porco com arroz. Geralmente são pretas…

ARMAZÉM S.A. – (Risos)

FELIPE – Tem garbanzos, é o grão de bico que eles cozinham, ou feijão branco com lingüiça.

ARMAZÉM S.A. – Isso é bom?

FELIPE – Sim. É típico da Galícia, creio.

ARMAZÉM S.A. – Essa experiência na Europa mudou bastante a sua relação com a comida, não? Me lembro q você  não era muito fã de linguiças, manteiga ou outras gorduras, etc…

FELIPE – Claro, como muitas coisas que antes eu não gostava ou que não tinha o hábito de comer. Agora, por exemplo, para preparar na minha cozinha/comida do cotidiano tenho certeza que mesclarei uma série de coisas, um toque francês na comida brasileira com comida espanhola. Ah, tenho que te contar duas coisas: esses dias uma amiga minha preparou um postre (sobremesa)… Crepe de chocolate com calda de laranha e figo. Que bueno, super rico!!!

ARMAZÉM S.A. – Hum, pede pra ela me mandar a receita…

FELIPE – E antes de ontem estava em um bar, um cara chegou no balcão e pediu um sanduíche de calamar, isto é bem madrileño, mas com um copo de café com leite, eu quase morri!!!

ARMAZÉM S.A. – (Risos) Tem gosto pra tudo…

FELIPE – Sim, esse dia eu vi.

ARMAZÉM S.A. – Legal cara, é isso aí. Tem mais alguma coisa que você queira falar? Alguma experiência bacana que eu não perguntei?

FELIPE – Hum… os bares de tapas mais populares são considerados bons quando estão sujos. Aqui todos comem e como a comida e as tapas são gordurosas usam muito guardanapo, mas jogam tudo no chão. Com o tempo o bar vai ficando sujo, uma porcaria. Mas, enfim, é bem visto!

ARMAZÉM S.A. – Valeu pelo tempo… Logo mais agente se vê e conversa melhor sobre isso tudo!

FELIPE – Bueno, essa era a última, pra fechar!

 

7 Respostas to “Felipe Ferrari, na íntegra”

  1. Victor Says:

    Gostei muito da entrevista, incentivo a termos mais entrevistas como essas!
    Parabéns!

  2. Fernanda Says:

    Dudu,

    Quando vc vai ensinar a receita daquele lombo divino que sua irma faz ?

  3. Maria de Fátima Alves Says:

    gostei muito da entrevista do felipe.

  4. maria de fatima Says:

    infelizmente nao soube acessar outro meio de fazer um comentario.
    Entao por via entrevistas consegui.
    gostaria de deixar declarado q estou orgulhosa do quanto meu filho e sobrinho estao conhecendo gastronomia.
    Desde os 10, 12 gosto de cozinhar, e hoje com 55 anos ainda adoro, mas infelizmente tenho poucas oportunidades,mas sempre q possivel faço pratos regionais e estou sempre interessada em aprender coisas novas. vivi muitos anos em SP. e adoro o mercadao, mesmo antes da reforma ja apreciava a beleza arquitetonica.
    sou mae coruja e nao me importo.
    bjs.

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